História e linguagem
Pianobrasileiro
O que é, de onde vem e o que eu faço com ele.

O piano brasileiro é o que aconteceu quando essa música entrou no instrumento.
O piano não é um instrumento brasileiro. Nasceu na Itália, no início do século XVIII, e chegou ao Brasil pelas mãos das elites: os teatros, as casas de música, os salões.
A música que ele encontrou aqui tinha outra história. Nasceu do encontro entre povos indígenas, africanos, portugueses e tantos outros que chegaram depois; de diferentes formas de cantar, tocar, dançar e marcar o tempo.
Essa música não nasceu no piano. Mas, quando encontrou o instrumento, alguma coisa começou a acontecer.
Como o piano virou brasileiro
Conto essa história do jeito que ela chegou em mim: pelos bailes, pelo rádio e pelos discos que ouvi muito antes de saber os nomes.
O piano passou o século XIX nos salões, tocando valsas e a música da Europa. A música da rua entrou por outra porta: os pianeiros, pianistas das lojas de partitura e dos cinemas mudos, tocavam polca, lundu e maxixe para vender música e animar sessões. Foi ali que o instrumento começou a mudar de sotaque. É uma história que eu reconheço: eu também comecei tocando para o baile, não para o concerto.
Na virada do século, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth fizeram do choro, do maxixe e do tango brasileiro música escrita para piano: o instrumento de salão passou a tocar o que se dançava no Rio de Janeiro. Villa-Lobos e Radamés Gnattali levaram essa música ao piano de concerto e ao rádio, e o samba, o frevo e o baião, o baião que meu pai tocava em casa, foram entrando pelo mesmo caminho, cada um com a sua maneira de marcar o tempo.
Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome, Johnny Alf e João Donato já tocavam a harmonia do jazz sobre o samba. Com a bossa nova, Tom Jobim pôs o piano no centro da canção. Com o samba-jazz das boates do Beco das Garrafas, Luiz Eça, Tenório Jr., César Camargo Mariano e Amilton Godoy fizeram do trio de piano, baixo e bateria a formação clássica do piano popular brasileiro, a formação em que eu mais gosto de improvisar. Egberto Gismonti abriu o instrumento para o Brasil inteiro, do choro à música indígena do Xingu; Hermeto Pascoal apagou a fronteira entre o erudito, o popular e o experimental; Tânia Maria levou esse piano cheio de balanço, tocado e cantado ao mesmo tempo, para os palcos do mundo.
A essa altura o piano já não reproduzia um repertório europeu. Tinha nascido uma maneira brasileira de tocar o instrumento: a mão esquerda fazendo o que o violão, o surdo e a zabumba fazem, a direita cantando como se canta aqui. Cada um desses músicos tocava o piano como se ele tivesse nascido no Brasil. Não são os únicos, nem de longe: são os que me formaram mais de perto. É a essa maneira de tocar que eu chamo de piano brasileiro, e é dela que eu venho.
De onde eu venho
Eu cresci em Cruz do Espírito Santo, no interior da Paraíba, tocando nos bailes da região. Antes de conhecer qualquer um desses nomes, eu conhecia o baião, o xote, o forró, o ritmo que meu pai tocava na percussão. Quando eu cheguei ao piano, cheguei com essa bagagem.
O que tento fazer é continuar a mesma ideia com a música que é minha. Começa pelo Nordeste, que é de onde eu venho: a mão esquerda que faz o baião como faz uma zabumba, a frase que vem do fole da sanfona e não da tradição do piano, o balanço do forró tratado com o mesmo cuidado que se dá a uma harmonia de jazz. Mas o Nordeste é o ponto de partida, não o limite. Eu gosto de pesquisar a música de todos os cantos do Brasil e de levar para o piano o que encontro.
O exemplo mais direto disso é o disco Baião de Dois, com Guegué Medeiros: piano e zabumba, só os dois. Um instrumento europeu e um instrumento brasileiro, com histórias que não têm quase nada em comum, tocando o cancioneiro nordestino juntos. Foi a primeira vez que esse encontro aconteceu em disco. O Interior, gravado ao vivo em piano solo, leva a mesma ideia ao limite: sem outro instrumento por perto, o piano precisa ser sozinho o ritmo, a harmonia e o cantador.
“Um improvisador imaginativo, cujo som conecta o erudito, o jazz e as tradições vibrantes do nordeste brasileiro.”
Brazilian Nites · EUA
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Seguir adiante
Essa história não está fechada. Cada geração pegou o piano brasileiro num ponto e entregou em outro, e eu entendo o meu trabalho assim: receber o que veio de Villa-Lobos a Laércio, passar pelo Nordeste em que cresci e entregar adiante. É o que faço nos discos, nos palcos e na Escola Salomão Soares, onde ensino essa linguagem, do ritmo à harmonia, para quem quer tocar o piano do jeito que o Brasil toca.
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“Salomão Soares cria aqui um novo piano brasileiro.”
Léa Freire · compositora e arranjadora
“Salomão Soares dá mais profundidade e elegância ao piano brasileiro.”
Katsuaki Hanada · e-magazine LATINA · Japão