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Salomão Soares

História e linguagem

Pianobrasileiro

O que é, de onde vem e o que eu faço com ele.

Salomão Soares ao piano de cauda no Cape Town International Jazz Festival, debruçado sobre o teclado, sob luz azul de palco
Cape Town International Jazz Festival · Cidade do Cabo, África do Sul · 2026 — Foto: ByBento / espAfrika

O piano brasileiro é o que aconteceu quando essa música entrou no instrumento.

O piano não é um instrumento brasileiro. Nasceu na Itália, no início do século XVIII, e chegou ao Brasil pelas mãos das elites: os teatros, as casas de música, os salões.

A música que ele encontrou aqui tinha outra história. Nasceu do encontro entre povos indígenas, africanos, portugueses e tantos outros que chegaram depois; de diferentes formas de cantar, tocar, dançar e marcar o tempo.

Essa música não nasceu no piano. Mas, quando encontrou o instrumento, alguma coisa começou a acontecer.

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Como o piano virou brasileiro

Conto essa história do jeito que ela chegou em mim: pelos bailes, pelo rádio e pelos discos que ouvi muito antes de saber os nomes.

O piano passou o século XIX nos salões, tocando valsas e a música da Europa. A música da rua entrou por outra porta: os pianeiros, pianistas das lojas de partitura e dos cinemas mudos, tocavam polca, lundu e maxixe para vender música e animar sessões. Foi ali que o instrumento começou a mudar de sotaque. É uma história que eu reconheço: eu também comecei tocando para o baile, não para o concerto.

Na virada do século, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth fizeram do choro, do maxixe e do tango brasileiro música escrita para piano: o instrumento de salão passou a tocar o que se dançava no Rio de Janeiro. Villa-Lobos e Radamés Gnattali levaram essa música ao piano de concerto e ao rádio, e o samba, o frevo e o baião, o baião que meu pai tocava em casa, foram entrando pelo mesmo caminho, cada um com a sua maneira de marcar o tempo.

Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome, Johnny Alf e João Donato já tocavam a harmonia do jazz sobre o samba. Com a bossa nova, Tom Jobim pôs o piano no centro da canção. Com o samba-jazz das boates do Beco das Garrafas, Luiz Eça, Tenório Jr., César Camargo Mariano e Amilton Godoy fizeram do trio de piano, baixo e bateria a formação clássica do piano popular brasileiro, a formação em que eu mais gosto de improvisar. Egberto Gismonti abriu o instrumento para o Brasil inteiro, do choro à música indígena do Xingu; Hermeto Pascoal apagou a fronteira entre o erudito, o popular e o experimental; Tânia Maria levou esse piano cheio de balanço, tocado e cantado ao mesmo tempo, para os palcos do mundo.

A essa altura o piano já não reproduzia um repertório europeu. Tinha nascido uma maneira brasileira de tocar o instrumento: a mão esquerda fazendo o que o violão, o surdo e a zabumba fazem, a direita cantando como se canta aqui. Cada um desses músicos tocava o piano como se ele tivesse nascido no Brasil. Não são os únicos, nem de longe: são os que me formaram mais de perto. É a essa maneira de tocar que eu chamo de piano brasileiro, e é dela que eu venho.

Salomão Soares, jovem, ao piano, com Hermeto Pascoal de pé ao seu lado, ouvindo
Tocando para Hermeto Pascoal · Jabour, Rio de Janeiro · 2015
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De onde eu venho

Salomão Soares ao lado do pai, José Soares, que segura uma zabumba
Com o pai, José Soares, na zabumba

Eu cresci em Cruz do Espírito Santo, no interior da Paraíba, tocando nos bailes da região. Antes de conhecer qualquer um desses nomes, eu conhecia o baião, o xote, o forró, o ritmo que meu pai tocava na percussão. Quando eu cheguei ao piano, cheguei com essa bagagem.

O que tento fazer é continuar a mesma ideia com a música que é minha. Começa pelo Nordeste, que é de onde eu venho: a mão esquerda que faz o baião como faz uma zabumba, a frase que vem do fole da sanfona e não da tradição do piano, o balanço do forró tratado com o mesmo cuidado que se dá a uma harmonia de jazz. Mas o Nordeste é o ponto de partida, não o limite. Eu gosto de pesquisar a música de todos os cantos do Brasil e de levar para o piano o que encontro.

O exemplo mais direto disso é o disco Baião de Dois, com Guegué Medeiros: piano e zabumba, só os dois. Um instrumento europeu e um instrumento brasileiro, com histórias que não têm quase nada em comum, tocando o cancioneiro nordestino juntos. Foi a primeira vez que esse encontro aconteceu em disco. O Interior, gravado ao vivo em piano solo, leva a mesma ideia ao limite: sem outro instrumento por perto, o piano precisa ser sozinho o ritmo, a harmonia e o cantador.

Salomão Soares ao piano na Igreja do Carmo, em Olinda, durante o Festival MIMO

“Um improvisador imaginativo, cujo som conecta o erudito, o jazz e as tradições vibrantes do nordeste brasileiro.”

Brazilian Nites · EUA
Prêmio MIMO Instrumental · Igreja do Carmo, Olinda · 2017 — Foto: Raquel Camargo
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Ver e ouvir

Salomão Soares ao piano e Guegué Medeiros na zabumba, na gravação de Feira de Mangaio
“Feira de Mangaio” · Baião de Dois · 2023 · piano e zabumba, com Guegué Medeiros
Salomão Soares sozinho ao piano, no vídeo de Caboclinho Armorial
“Caboclinho Armorial” · Interior · 2023 · piano solo
Salomão Soares ao piano, de fone, no vídeo de Luzes do Carmo
“Luzes do Carmo” · Espirais · 2024 · Salomão Soares Trio
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Seguir adiante

Essa história não está fechada. Cada geração pegou o piano brasileiro num ponto e entregou em outro, e eu entendo o meu trabalho assim: receber o que veio de Villa-Lobos a Laércio, passar pelo Nordeste em que cresci e entregar adiante. É o que faço nos discos, nos palcos e na Escola Salomão Soares, onde ensino essa linguagem, do ritmo à harmonia, para quem quer tocar o piano do jeito que o Brasil toca.

“Salomão Soares cria aqui um novo piano brasileiro.”

Léa Freire · compositora e arranjadora

“Salomão Soares dá mais profundidade e elegância ao piano brasileiro.”

Katsuaki Hanada · e-magazine LATINA · Japão